Tuberculose: sociedade civil criando corpo e movimento

22/03/2019 - Redação Gestos

  1. Márcia Leão
  2. Jair Brandão
  3. Liandro Lindner

No mês de março as atenções para a tuberculose (TB) crescem, em razão ao Dia Mundial de Luta Contra TB (24 de março) e das ações de mobilização social e visibilidade que se incrementam neste período. Em todo o mundo ativistas afetados/as pela TB, organizações de base comunitária, pesquisadores/as, instituições privadas e governos, trazem à tona debates visando chamar a atenção para uma doença que tem cura, mas que mesmo assim afeta cerca de 70 mil pessoas todos os anos; e matou 4.426 brasileiros/as em 2016.

No Brasil, a cada dia, cerca de 12 pessoas são vitimadas pela TB e, mesmo com tratamento disponibilizado na rede pública, os casos novos continuam se destacando e especialmente a descontinuidade no uso na medicação continua ocorrendo. Falta informação continuada e tudo parece se resumir a ações localizadas no ‘dia mundial’. O imaginário social de que a TB é coisa do passado, aliado aos problemas de ordem social, que unem a pobreza ao convívio com a doença, talvez sejam dois dos maiores obstáculos atuais.

Neste sentido, a sociedade civil possui importante papel no protagonismo das mudanças necessárias que queremos. Enquanto outros movimentos sociais se organizam de forma nacional com suas agendas políticas e levantando suas bandeiras de lutas, visibilizando assim suas pautas nos espaços de tomadas de decisões e nas políticas públicas, lamentavelmente a TB está invisibilizada na agenda dos grandes temas debatidos, ficando negligenciada.

Importante levar em consideração que a não existência de um espaço nacional político, formado exclusivamente por ativistas e instituições da sociedade civil no campo da TB, contribui para esta invisibilidade. Importante o amadurecimento e a articulação política para a existência deste espaço.

Temos ativistas e muitas organizações nas diversas regiões do Brasil atuando de forma decisiva, mas sem articulação conjunta que repercuta intensamente nos espaços de decisão da saúde pública e outras políticas correlatas. O modelo assistencial, que foi o embrião deste segmento do movimento comunitário hoje, precisa ser substituído por ações políticas e participativas que reverberem em formulação de legislações e projetos visando a diminuição dos efeitos desta chaga social.

Embora reconheçamos a importância de ambientes de mobilização de formato misto, reunindo segmentos diversos, entendemos que é o momento de ir além e reunir num espaço próprio a sociedade civil no enfrentamento à TB.

A criação de um coletivo brasileiro que reúna ativistas, organizações, redes e movimentos sociais que realmente possuem sintonia com a realidade de nosso país e possam reverberar estas ações no cenário nacional e internacional representará um marco de avanço na busca de respostas e ações rumo ao fim da TB.

Além disso, a junção das experiências regionais contribuirá no entendimento de uma doença que não é democrática, nem equânime, levando a discussão de forma embasada e coerente principalmente nos aspectos relevantes da realidade brasileira como as coinfecções, o uso problemático de álcool e outras drogas, as questões de gênero, a violência, a exclusão social e o racismo entre outros pontos.

É hora de irmos além, pensando que os novos tempos exigem novas atitudes e somente com a união de um coletivo com objetivos em comum poderemos avançar, oportunizando voz a uma realidade que, muitas vezes, escapa dos gabinetes governamentais ou das instâncias internacionais. Temos que dar visibilidade para sociedade que a tuberculose ainda é um grave problema na saúde pública em nosso país. Enquanto sociedade civil, necessitamos de novos ares, fortalecer a mobilização social pelo fim da TB. É tempo de reconstrução, de redimensionar nossos esforços e de avançar.

1. Advogada, ativista do movimento aids e tuberculose, coordenadora executiva do Fórum Ong aids RS
2. Bacharel em Gestão Pública, ativista do movimento aids e tuberculose, assistente de projetos da Gestos/PE
3. Jornalista, Doutor em Saúde Pública, ativista do movimento de redução de danos, aids e tuberculose.