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Seminário de 33 anos da Gestos debateu desafios atuais e futuros do HIV e da AIDS. Confira como foi

Seminário de 33 anos da Gestos debateu desafios atuais e futuros do HIV e da AIDS. Confira como foi

A Gestos celebrou seus 33 anos de atuação com um seminário na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), nesta terça-feira, 26 de maio. O encontro reuniu ativistas, pesquisadores, profissionais de saúde, gestores públicos e sociedade civil para debater os desafios atuais e o futuro da resposta ao HIV e à AIDS, além de temas como prevenção combinada, envelhecimento, AIDS avançada, comunicação, estigma, direitos humanos e coinfecção tuberculose-HIV.

O seminário reafirmou o compromisso histórico da Gestos com a defesa da vida, da democracia e dos direitos humanos, fortalecendo o diálogo na construção de respostas mais humanas, inclusivas e acolhedoras para o enfrentamento do HIV e da AIDS.

Reunimos aqui os principais momentos. Confira:

As fotos são de Will Souza.

A abertura do evento contou com falas de Jô Meneses, coordenadora de Assistência e Educação da Gestos, Manoel Moraes, da Cátedra Unesco/Unicap de Direitos Humanos Dom Helder Câmara, e Tiago Feitosa, diretor da Escola de Saúde e Ciências da Vida da Unicap. 


Jô destacou a trajetória da Gestos marcada pela coragem, pelo acolhimento e pela defesa dos direitos das pessoas vivendo com HIV/AIDS desde os anos 1990. Ela relembrou o trabalho realizado pela organização durante os primeiros anos da epidemia, enfrentando preconceitos e estigmas para oferecer apoio psicológico, jurídico e social às pessoas soropositivas. 

Também ressaltou que, ao longo dos anos, a Gestos ampliou sua atuação para temas ligados aos direitos humanos, direitos sexuais e desenvolvimento sustentável, sem perder sua identidade histórica e seu compromisso com a inclusão e a justiça social.

Manoel Moraes destacou a trajetória da Gestos como símbolo de resistência e compromisso com os direitos humanos, especialmente na luta pela dignidade das pessoas vivendo com HIV/AIDS. Enfatizou a importância da democracia, das políticas públicas e da atuação histórica da organização no movimento AIDS brasileiro. Também reafirmou a parceria entre a universidade e a Gestos na construção de diálogos permanentes e ações coletivas em defesa dos direitos humanos.

Já Tiago Feitosa destacou a alegria da Unicap em receber o seminário e colocou a estrutura acadêmica da Escola de Saúde à disposição da Gestos e dos movimentos sociais para fortalecer parcerias em pesquisa, extensão e projetos de inclusão. Também destacou a atuação da universidade em comunidades da Região Metropolitana do Recife, por meio de dezenas de projetos desenvolvidos em territórios periféricos, buscando construir alternativas mais justas e acolhedoras para a população.

Ao longo do seminário, as mesas abordaram diferentes aspectos relacionados aos desafios contemporâneos do HIV/AIDS no Brasil. 

O sociólogo e cofundador da Gestos Acioli Neto relembrou os 33 anos de trajetória da Gestos e destacou a emoção de acompanhar a permanência e resistência da organização ao longo das décadas. Falou das dificuldades enfrentadas desde o início da epidemia, como a falta de financiamento, o preconceito e o estigma direcionado tanto às pessoas vivendo com HIV quanto aos profissionais envolvidos na resposta à AIDS. 

Também chamou a atenção para desafios atuais, como envelhecimento com HIV, acesso à prevenção e autocuidado, reforçando a importância de manter o debate vivo diante das contradições entre os avanços conquistados e as barreiras que ainda persistem.

Acioli reforçou a necessidade de ampliar o olhar das políticas de prevenção para travestis e pessoas trans, destacando que essa população ainda enfrenta invisibilidade e vulnerabilidades específicas no contexto do HIV/AIDS. Segundo ele, o estigma continua sendo uma realidade persistente e o enfrentamento ao preconceito precisa permanecer no centro das políticas públicas.

Representando o Ministério da Saúde, Marcela Vieira Freire, do Departamento de HIV/AIDS, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (Dathi), compartilhou sua relação afetiva e histórica com a Gestos, relembrando que acompanhou desde a infância o trabalho desenvolvido pela organização. Ao abordar o tema da AIDS avançada, destacou os desafios ainda enfrentados no Brasil, especialmente o diagnóstico tardio, a interrupção do tratamento e a persistência da mortalidade relacionada ao HIV/AIDS. Segundo ela, fatores como desigualdade social, raça, escolaridade e barreiras de acesso aos serviços de saúde impactam diretamente a vida das pessoas mais vulnerabilizadas.

Marcela apresentou ainda o Circuito Rápido da AIDS Avançada, iniciativa voltada ao diagnóstico precoce e ao cuidado integral das pessoas com imunossupressão grave. Ela informou que Pernambuco já integra a política pública e explicou que a proposta busca acelerar o acesso ao diagnóstico, ao tratamento e à prevenção de infecções oportunistas, contribuindo para reduzir os óbitos relacionados à AIDS no país. Também reforçou a importância das organizações da sociedade civil no acolhimento, na construção de vínculos e na defesa dos direitos das pessoas vivendo com HIV/AIDS.

O infectologista Demetrius Montenegro, do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, destacou que o envelhecimento das pessoas vivendo com HIV representa uma conquista da ciência, do tratamento e da resistência coletiva construída ao longo das últimas décadas. Comentou que hoje o acompanhamento dessas pessoas está cada vez mais relacionado ao cuidado integral da saúde, já que os tratamentos avançaram significativamente e permitem maior longevidade e qualidade de vida.

Ao refletir sobre os desafios atuais, Demetrius falou sobre temas como saúde mental, alimentação, atividade física, prevenção, solidão, etarismo e preconceito ainda enfrentados pelas pessoas idosas vivendo com HIV. Também defendeu a importância de ampliar o acesso às novas tecnologias de prevenção e tratamento, destacando que pessoas com carga viral indetectável não transmitem o HIV sexualmente, avanço que contribui diretamente para a quebra do estigma relacionado ao vírus.

As estratégias de prevenção também estiveram entre os principais temas discutidos no evento.  Grazielle Vasconcelos, da Gerência da Política Estadual de IST/AIDS, apresentou os avanços de Pernambuco na ampliação do acesso à PEP e à PrEP, reforçando o trabalho realizado pelo programa estadual desde 2015. 

Grazielle mostrou a descentralização desses serviços para unidades de saúde e atendimentos 24 horas, além da ampliação da PrEP na atenção primária como parte do cuidado integral em saúde. A gestora também enfatizou o investimento na capacitação de profissionais em todas as regiões do estado, buscando fortalecer o acolhimento e o atendimento às pessoas que necessitam de prevenção ao HIV. 

Segundo ela, a proposta é ampliar cada vez mais o acesso à informação, ao autocuidado e aos medicamentos de prevenção nos territórios. Grazielle apresentou ainda dados sobre a expansão da rede de dispensação de medicamentos em Pernambuco e mencionou que o estado já alcança a meta mínima estabelecida pelo Ministério da Saúde para usuários em PrEP.

Airles Ribeiro, coordenador municipal de ISTs e HIV/AIDS do Recife,  defendeu que a prevenção combinada precisa ser constantemente revisitada para acompanhar as mudanças da sociedade e das formas de enfrentamento ao HIV/AIDS. De acordo com ele, a capital ainda enfrenta altos índices de diagnóstico tardio e AIDS avançada, principalmente entre pessoas heterossexuais acima dos 40 anos, que muitas vezes não se percebem vulneráveis ao HIV.

O gestor criticou o foco exclusivamente biomédico das políticas atuais, centradas apenas em PrEP e PEP, defendendo também o fortalecimento das chamadas “tecnologias humanas”, como acolhimento, diálogo, educação em saúde e construção de vínculos com as comunidades. 

Ele comentou ainda sobre a importância de adaptar as estratégias de prevenção às diferentes populações e territórios, questionando se os formatos tradicionais de comunicação ainda conseguem alcançar públicos mais jovens.

Airles apresentou avanços do município, como o crescimento da PrEP, a ampliação da vacinação contra hepatites e HPV, a descentralização da PEP para unidades 24 horas e a criação de ambulatórios específicos para mulheres cis, trans e travestis. Também mostrou ações voltadas à população em situação de rua, com atendimento e tratamento diretamente nos territórios, além da redução da transmissão vertical do HIV no Recife.

O assessore de projetos da Gestos, Thiago Jerohan, refletiu, em sua fala, sobre o estigma relacionado ao HIV como uma construção histórica e social que continua impactando a vida das pessoas vivendo com HIV/AIDS. Enfatizou que o preconceito foi alimentado ao longo das décadas por discursos moralizantes, pela mídia e por padrões sociais que associaram o HIV a determinados grupos e comportamentos, reforçando discriminações ligadas à sexualidade, raça, gênero e classe social.

Ao abordar os impactos desse estigma, Thiago ressaltou que ele ainda dificulta o acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento, além de provocar discriminação em espaços familiares, profissionais e até nos serviços de saúde. Citando dados do Índice de Estigma, lembrou que mais da metade das pessoas vivendo com HIV no Brasil relatam já ter sofrido algum tipo de discriminação relacionada ao vírus.

Para ele, enfrentar o HIV exige uma abordagem que vá além da saúde biomédica e coloque os direitos humanos no centro da resposta à epidemia. Thiago também defendeu a importância da educação sexual, da comunicação responsável e do fortalecimento das ações comunitárias e culturais para combater o preconceito e ampliar o acesso à informação e ao cuidado.

A enfermeira da Gestos, Talita Nascimento, emocionou o público trazendo uma fala marcada pelas experiências vividas no cuidado de pessoas com tuberculose e HIV, destacando que essas duas infecções atravessaram sua formação como enfermeira e transformaram sua forma de enxergar o cuidado em saúde. Em vez de focar apenas em números e indicadores, ela escolheu falar sobre pessoas, histórias e vivências concretas de pacientes que enfrentaram a coinfecção.

Ela defendeu que a coinfecção tuberculose-HIV não pode ser entendida apenas pelo olhar biomédico, porque fatores como pobreza, racismo, violência, insegurança alimentar, encarceramento, uso problemático de drogas e estigma interferem diretamente na adesão ao tratamento. A partir de relatos de pacientes e experiências em visitas domiciliares, Talita mostrou que acolhimento, vínculo e escuta qualificada fazem diferença real na continuidade do cuidado.

Destacou ainda que dois pilares são fundamentais no enfrentamento da coinfecção: adesão ao tratamento e acolhimento humanizado. Os relatos apresentados por ela mostraram como o apoio da equipe de saúde, da família e das redes de cuidado pode fortalecer as pessoas durante o tratamento, enquanto o preconceito e o isolamento dificultam ainda mais o enfrentamento da doença.

Encerrando o seminário, Juliana Cesar, coordenadora de Articulação Política, Relações Internacionais e Comunicação da Gestos, destacou a comunicação como uma estratégia central da organização para promover acesso à informação, direitos humanos e inclusão social. Segundo ela, a organização constrói suas ações a partir de uma perspectiva de direitos humanos integrados (sociais, econômicos, culturais e ambientais) entendendo que não é possível garantir um direito sem garantir os demais.

Juliana mostrou destaques de mais de 30 anos de produção de campanhas, cartilhas, publicações, cursos, podcast, vídeos, exposições e ações de rua desenvolvidas pela Gestos. Ela explicou que os materiais produzidos surgem das dúvidas, necessidades e experiências reais das populações atendidas, especialmente pessoas vivendo com HIV, mulheres, jovens e população LGBTQIAPN+.

Também falou da importância de construir linguagens acessíveis, inclusivas e livres de discriminação, capazes de transformar informação em diálogo e fortalecer a autonomia política e social das pessoas. Ao encerrar, destacou que a comunicação continua sendo uma ferramenta fundamental no enfrentamento ao HIV, ao estigma e às violações de direitos.

Temas deste texto: aniversário Gestos - HIV/AIDS