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Lideranças globais defendem protagonismo comunitário e novos pactos de financiamento na pré-conferência da Gestos e IPPF na AIDS 2026

Lideranças globais defendem protagonismo comunitário e novos pactos de financiamento na pré-conferência da Gestos e IPPF na AIDS 2026

A construção de novos caminhos para responder ao HIV e à AIDS passa obrigatoriamente pelo protagonismo das comunidades, pela ampliação da cooperação entre movimentos sociais e pela busca de mecanismos sustentáveis de financiamento que garantam respostas baseadas em direitos humanos. Essas foram as principais conclusões da pré-conferência da AIDS 2026 intitulada “Repensar, Reconstruir, Reforçar – Integração entre Direitos Sexuais e Reprodutivos e HIV e liderança comunitária em uma nova era de financiamento”. 

Promovido pela Gestos e pela Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF, na sigla em inglês), o evento reuniu representantes de agências da ONU e de governos, organizações da sociedade civil e lideranças comunitárias no domingo, 26 de maio, no Riocentro, onde acontece, até esta sexta (31), a 26ª Conferência Internacional de AIDS, promovida pela Sociedade Internacional de Aids (IAS).

Repensar a resposta em uma nova era

No painel de abertura da tarde — “Repensar a resposta global à AIDS: a transição para uma nova era de direitos sexuais e reprodutivos e justiça” —, Thiago Jerohan, assessore de projetos da Gestos, defendeu que o enfrentamento dos desafios atuais exige uma maior articulação entre organizações e movimentos sociais, com troca permanente de conhecimentos e uso estratégico de novas tecnologias para ampliar o alcance das ações de incidência política e fortalecer a defesa dos direitos sexuais e reprodutivos na resposta ao HIV.

Presente no painel de abertura, moderado por Maria Antonieta Alcalde, diretora-geral da IPPF, Winnie Byanyima, diretora executiva do Unaids Global, afirmou que é preciso intensificar esforços. “Sabemos o que funciona: combater as desigualdades, fechar as lacunas, construir sistemas de saúde integrados e liderados pelas comunidades e garantir que os avanços da ciência cheguem a todas as pessoas que deles necessitam, e não apenas a algumas”, disse. “Hoje temos a ciência, as comunidades, as declarações e os compromissos. O que precisamos agora é de vontade política coletiva para agir”, enfatizou. 

Todas as pessoas que participaram da pré-conferência foram enfáticas em mostrar que a resposta ao HIV é inseparável da agenda de direitos humanos e equidade, num alerta sobre os desafios impostos pelo avanço de movimentos conservadores, da desinformação e da anticiência. 

Também participaram do painel de abertura Gallianne Palayret, diretora nacional da ONU Mulheres no Brasil; Amaranta Gómez, do Secretariado Internacional dos Povos Indígenas frente ao HIV/AIDS, à Sexualidade e aos Direitos Humanos (Sipia); e Mariângela Simão, Secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde.

Onde está o dinheiro?

Na segunda sessão da tarde — “Onde está o dinheiro: reconstruir o futuro da resposta à AIDS” —, Juliana Cesar, coordenadora de Articulação Política, Relações Institucionais e Comunicação da Gestos, alertou que o modelo tradicional de cooperação internacional não voltará a ser como antes e que os países precisam construir respostas nacionais sustentáveis, com novas formas de financiamento, maior compromisso político e recursos destinados diretamente às organizações lideradas pelas comunidades. A sessão foi moderada por Alessandra Nilo, diretora de relações externas do escritório da IPPF LAC. 

Segundo Juliana, para além de uma crise de recursos, o momento revela uma crise de prioridades, o que exige coragem para enfrentar a concentração de riqueza, garantir financiamento de base às organizações da sociedade civil e assegurar que as decisões sobre a resposta ao HIV e à AIDS sejam tomadas com participação efetiva das comunidades locais. 

Ela destacou que o principal problema não é a falta de recursos, mas as escolhas políticas sobre como eles são distribuídos. Enquanto governos ampliam gastos com militarização, bastariam poucos dias desse investimento para financiar toda a resposta global ao HIV por um ano. Para Juliana, a crise atual revela não apenas um déficit de financiamento, mas também uma crise de prioridades, valores e responsabilidade política.

Segundo o UNAIDS, os recursos destinados ao enfrentamento da epidemia sofreram uma redução entre 30% e 40% em 2025, na comparação com o orçamento disponível em 2023. Paralelamente, a assistência internacional ao desenvolvimento registrou uma queda de 23%, a maior já documentada, comprometendo programas de prevenção, tratamento, pesquisa e iniciativas lideradas pelas comunidades.

Micah Grzywnowicz, diretor regional da IPPF Europa, também defendeu que a crise da resposta ao HIV vai além da falta de recursos. “Trata-se também de uma crise política, de governança e de liderança”, disse. Ele argumentou que a sociedade civil precisa desenvolver novas capacidades para participar dos debates sobre financiamento, hoje dominados por governos e instituições financeiras, compreendendo temas como política fiscal, dívida pública e mecanismos inovadores de financiamento. 

Ressaltou, porém, que essas alternativas devem complementar, e não substituir, a responsabilidade dos Estados de financiar a saúde e garantir direitos, sempre colocando as necessidades das pessoas acima dos interesses econômicos.

As pessoas foram unânimes em afirmar que a resposta à crise de financiamento do HIV não deve se limitar a tentar cobrir o déficit de US$ 3 bilhões, mas aproveitar o momento para promover uma transformação estrutural do sistema global de saúde. 

Também participaram dessa segunda sessão do dia Mark Vermeulen, diretor do AIDS Fonds; Thea Willis, do Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária; e Masen Davis, diretor executivo da FCAA.

A pré-conferência da Gestos e IPPF também contaram com as sessões “Do discurso à ação: respostas e principais reivindicações lideradas pelos jovens” e “Lacuna: promover respostas lideradas pela comunidade na integração da saúde sexual e reprodutiva e dos direitos humanos com o HIV”, além do lançamento do kit de Ferramentas sobre o Trabalho Sexual, da IPPF.

Fotos: Raquel Cruz/IPPF Acro

Temas deste texto: AIDS 2026 - HIV/AIDS