Congresso debate doenças transmissíveis e os desafios para enfrentar epidemias

06/09/2018 - Redação Gestos

Pernambuco sediou entre os dias 2 e 5 de setembro o 54º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, no Centro de Convenções, em Olinda. Com o tema “Doenças Transmissíveis: predição e desafios para o enfrentamento de novas e velhas epidemias”, o encontro reuniu especialistas de diversas partes do mundo em doenças transmissíveis. A abertura do evento contou com uma conferência da epidemiologista Fátima Militão, da Fundação Osvaldo Cruz, que traçou um panorama das principais arboviroses presentes no Brasil (dengue, Chikungunya e Zika), chamando atenção para as pesquisas que começaram a ser desenvolvidas desde 2016 (quando um surto de Zika assustou alguns estados do país, especialmente Pernambuco) e para as descobertas que foram feitas pelos pesquisadores desde então.

A epidemiologista destacou que o fato de não existirem pesquisas anteriores sobre o assunto, os cientistas tiveram que partir do zero para investigar a epidemia e suas consequências – num processo contínuo que ainda apresenta muitas questões sem resposta. Identificada também como uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST), que pode ser transmitida pelo parceiro até seis meses após a contaminação pelo vírus, ainda não é possível dizer, por exemplo, quais os riscos percentuais de uma gestante que teve a doença dar à luz um filho com a Síndrome Congênita de Zika – que entre as várias consequências provoca a microcefalia.

A Zika foi debatida diversas mesas durante o congresso, sob vários aspectos, incluindo os impactos sociais e econômicos da doença nas famílias com crianças nascidas com a Síndrome Congênita de Zika – causadora de várias limitações para os bebês e crianças infectados.

Juliana Cesar, assessora de Programas Institucionais da Gestos, acompanhou duas conferências sobre o assunto. “É importante que continuemos discutindo e pesquisando o vírus da Zika e o impacto da epidemia na sociedade, inclusive alertando a população sobre como se prevenir e também sobre os direitos sexuais e reprodutivos. Apesar de o momento auge da epidemia ter passado, não há garantias de que esta situação não volte a acontecer, pois as condições que permitiram a propagação do vírus continuam latentes na sociedade brasileira, como ausência de condições sanitárias e desigualdades sociais”, avaliou.

Prevenção

A Gestos realizou recentemente projeto em três Escolas de Referência da Rede Estadual Pública de Ensino de Pernambuco, alertando sobre o Zika Virus e especialmente sobre a transmissão sexual do vírus, além de abordar também outras ISTs. Como resultado da mobilização, que foi feita juntamente com os jovens do Espaço Saúde e Sexualidade da Gestos, os alunos foram convidados a participarem de um concurso de redação com o tema “Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva em tempos de Zika”. A Gestos recebeu 322 redações e premiou as três melhores. A ação foi financiada pela IPPF/WHR (International Planned Parenthood Federation).

Hepatite

Na terça-feira (04/09), na mesa “Hepatite B: desafios no seu manejo”, Marcelo Simão Ferreira – PhD pela Sociedade Brasileira de Infectologia, detalhou o tratamento da infecção em pessoas com doenças que afetam o sistema imunológico, como o câncer (Hepatite B em imunossuprimidos). Ferreira alertou sobre o avanço da epidemia e a evolução acelerada em pacientes imunossuprimidos.

A Hepatite B pode ser transmitida através do sangue, sêmen ou secreções vaginais. É possível ficar protegido da infecção, caso a pessoa tome corretamente a vacina. Após instalada, a Hepatite B causa inflamação no fígado, podendo evoluir para doenças graves, como cirrose e câncer. Segundo Marcelo Simão Ferreira, estima-se que atualmente 2 bilhões de pessoas no mundo sejam infectadas com o vírus, com 400 milhões de casos crônicos. Por ano, 4 milhões de novos casos ocorrem, sendo o vírus da Hepatite B considerado cem vezes mais contagiosos que o do HIV.

Na mesma conferência, coordenada por Paulo Abrão Ferreira (UNIFESP), Raimundo Paraná (UFBA) apresentou a pesquisa sobre novos recursos laboratoriais para diagnóstico e acompanhamento da Hepatite B; e Maria Cássia Mendes (HC/USP) falou dos desafios da co-infecção da Hepatite B e do HIV.