Pioneirismo da Gestos no atendimento psicoterapêutico é destaque em Networking Zone da AIDS 2026
A trajetória da Gestos na construção de um atendimento psicoterapêutico voltado para pessoas vivendo com HIV/AIDS e a população LGBTQIAPN+ foi tema central de uma Networking Zone de saúde mental durante a AIDS 2026, a 26ª Conferência Internacional sobre AIDS, realizada no Rio de Janeiro.
A sessão, intitulada “TRANSgressoras: o Impacto das Pessoas Trans na História da Redução de Danos no Brasil e a Relação com as Políticas de Drogas Hoje”, reuniu as psicólogas da organização Ájò Nasidí, Tânia Tenório e Juliana Mazza, com a mediação conduzida por Glaudston Lima, também integrante da equipe de psicologia da Gestos.
A sessão, além de apresentar os serviços da instituição, reconstruiu a metodologia de como o atendimento clínico da Gestos foi se transformando ao longo de mais de três décadas conforme mudava o perfil de quem chegava precisando de atendimento, desde crianças e famílias de pessoas vivendo com HIV/AIDS, passando por adolescentes e jovens vivendo, até a juventudes trans, não binárias, negras e periféricas que hoje ocupam a maior parte da escuta clínica da organização.
Psicóloga da Gestos, Ájò Nasidí abriu a discussão questionando os limites da clínica tradicional diante de corpos marcados pela violência estrutural. Para ela, “não tem como a gente não transversalizar a discussão de saúde mental com as outras políticas, porque não é só sobre saúde mental. É acesso à sociedade, é acesso ao trabalho, é acesso à educação”. Uma escuta que se limita ao consultório, na avaliação da psicóloga, “não vai dar conta desse espaço”, pois é preciso compreender o contexto de vida de cada pessoa atendida para que a intervenção clínica faça sentido.
Na Gestos, a escuta psicológica segue lado a lado com o encaminhamento social e jurídico. A equipe de psicologia se articula com a assessoria jurídica da própria instituição, entendendo que a violação de direitos vivida pela população ultrapassa o que uma escuta clínica isolada pode resolver.

Ájò relatou ainda a hipervigilância que identifica com frequência, entre pessoas atendidas, um estado de alerta constante que, ao ser investigado, revela histórias de abordagem policial e vigilância familiar. “Vergonha”, “culpa” e “sentimento de humilhação por ser quem é dentro da sociedade” foram termos que a profissional apontou como recorrentes nos relatos que ouve.
A psicóloga, que também é arteterapeuta de formação, incorpora a produção artística da juventude LGBTQIAPN+ negra e periférica ao trabalho clínico como forma de ressignificar narrativas de violência e construir novas imagens de possibilidade e projeto de vida. “Eu vou fortalecer a identidade e a subjetividade daquela pessoa para que ela reconheça a sua identidade como algo potente”, resumiu.
Tânia Tenório levou à sessão o histórico de resposta comunitária da Gestos às famílias e crianças de pessoas vivendo com HIV/AIDS, construído ao longo dos 33 anos da instituição. A psicóloga destacou o ativismo e o trabalho com arte como marcas das atividades com a juventude, além da centralidade da garantia de direitos e do acesso à saúde e à educação desde o início da atuação da organização.
Tânia chamou a atenção para a diferença entre conquistar acesso e conseguir permanência, referindo-se à dificuldade de manutenção de pessoas trans e travestis nos espaços educacionais e de saúde. O enfrentamento à violência doméstica também foi apontado como eixo histórico do trabalho da Gestos com crianças e adolescentes, assim como a atenção à insegurança alimentar como fator que atravessa essas vidas.
Já Juliana Mazza relatou como sua chegada à Gestos ampliou a escuta institucional para pessoas não binárias e transmasculinas, exigindo uma revisão das metodologias de trabalho até então centradas majoritariamente em pessoas vivendo com HIV/AIDS. A aposta da organização em metodologia grupal, segundo Juliana, permite acompanhamentos mais longos do que o atendimento individual breve e produz efeitos de rede e formação coletiva de identidade.
Ao marcar os 10 anos do projeto Espaço Saúde e Sexualidade, ela apontou um padrão observado, ao longo da última década, de jovens que chegam à Gestos recém-diagnosticados com HIV/AIDS e, após o acompanhamento em grupo, passam a conviver com pares, tornam-se ativistas e, em alguns casos, integram a própria equipe de projetos da organização.
Para Juliana, esse processo tem efeito direto sobre o estigma: “isso diminuiu o preconceito e fez com que a pessoa tivesse uma juventude muito mais saudável. Passou a ser frequente ouvir que ‘A Gestos mudou a minha vida’. Essa é a frase que resume o relato recorrente de pessoas atendidas pela organização”.

Como mediador, Glaudston Lima também trouxe reflexões próprias ao longo da sessão, situando o trabalho em grupo como espaço de compartilhamento, solidariedade e reconhecimento, tanto do sofrimento quanto da potência de enfrentamento coletivo desse sofrimento.
O psicólogo falou sobre a incorporação da cultura de paz e da comunicação não violenta como eixos metodológicos, além da atenção ao envelhecimento da população LGBTQIAPN+ e de pessoas vivendo com HIV/AIDS, tema do livro “A AIDS Envelheceu: quatro décadas da epidemia de HIV no Recife contadas por profissionais e ativistas”, publicado pela Gestos.
Escrita pelo sociólogo Acioli Neto, a obra reúne entrevistas com 13 profissionais de saúde e ativistas que vivenciaram o período mais difícil da epidemia de HIV no Recife.
“A saúde mental não pode ser compreendida como um processo individual. É um processo coletivo, de produção de vida, do cuidado, da autonomia, da construção das relações sociais, culturais, históricas e territoriais. O sofrimento psíquico é atravessado pelas marcas porque aí vêm as marcas do racismo, da cis-heteronormatividade, do patriarcado, do capacitismo, da pobreza, do capitalismo, que também fazem parte do processo de violação de direitos humanos”, enfatizou Glaudston.
Para Jô Meneses, coordenadora de Assistência e Educação da Gestos, a apresentação na Networking Zone destacou que a atuação da Gestos sempre esteve comprometida com a promoção da saúde mental das pessoas que vivem com HIV/AIDS. “Desde o início, esse trabalho foi desenvolvido a partir da escuta atenta das necessidades dessa população, permitindo que as ações fossem sendo aperfeiçoadas ao longo do tempo. A conferência reforça que esse percurso contribuiu para fortalecer a autoestima, o reconhecimento do potencial de cada pessoa e a valorização das diferentes vivências relacionadas à orientação sexual e à identidade de gênero, aspectos fundamentais para a construção do bem-estar e da qualidade de vida”, reforçou.
Além do cuidado psicológico, o fortalecimento da saúde mental possibilita às pessoas enfrentarem o estigma e a discriminação associados ao HIV, favorecendo também uma relação mais positiva com o tratamento. Nesse contexto, a defesa da cidadania e dos direitos humanos aparece como parte essencial dessa abordagem, explica Jô, demonstrando que a promoção da saúde mental envolve tanto o acolhimento individual quanto a garantia de direitos e o combate às desigualdades.
